LAB EVANGÉLICO
Sindicato Rural de Anápolis
CCA MOTOS

30 anos sem James Fanstone

Presumivelmente 1925 ou 1926, pois o hospital, o primeiro que a cidade viria a ter, ainda não estava consolidado. A paciente chegara de sua fazenda, com grande dor, grávida de seis meses e, tendo ingerido jabuticabas com cascas e sementes, estava há um mês sem evacuar. Por isso ela apresentava duas intumescências no abdômen: uma enorme massa no intestino grosso (fecaloma) do lado esquerdo, e a gravidez de seis meses, do lado direito.

 Caso não fosse operada iria morrer. Por falta de outros recursos e equipamentos de praxe, após os procedimentos indispensáveis de assepsia do ambiente, a paciente foi deitada na mesa da cozinha da casa do médico. A intervenção começou: fez-se um “ânus” artificial em cima do umbigo, no cólon transverso, para deixar sair os gases. Este procedimento de trato cirúrgico salvou-lhe a vida e permaneceu funcionando até depois do parto.

 Três meses depois, ela deu à luz a uma menina. Após algumas semanas de repouso, iniciaram-se as lavagens intestinais “por cima” e remoção digital “por baixo”, retirando-se, pacientemente, o fecaloma. Após isso, a cirurgia complementar: ressecamento do pedaço transverso que continha o “ânus” artificial e anastomose dos segmentos do cólon dividido. A mulher teve vida normal a partir de então e viveu para assistir ao casamento de sua primeira filha.

Esta é a saga da primeira cirurgia realizada na cidade de Anápolis, com todos os procedimentos cirúrgicos feitos pelo médico James Fanstone, que faleceu em Anápolis há 30 anos.

CAPITÃO MÉDICO NA I GUERRA MUNDIAL

Recém-formado, James Fanstone alistou-se no exército inglês e participou da I Guerra Mundial (1914/1918), em que participaram 17 países da Tríplice Entente e Países Aliados, entre os quais o Brasil e outros quatro da Tríplice Aliança. Ele prestou serviços como capitão médico da Infantaria Britânica, nas trincheiras da França e da Bélgica. Na Alemanha permaneceu por um ano como integrante do Exército de Ocupação. Deu baixa em 1919. Por sua participação em campanhas, recebeu três medalhas e conseguiu, do seu soldo, economizar as libras com as quais iniciaria,três anos mais tarde, o seu trabalho no Brasil.

Desse conflito mundial, ele guardava com viva e profunda comoção, a repentina morte de um colega, que estava a seu lado. Ambos caminhavam conversando. O outro jovem caiu a seu lado, sem concluir a frase que havia começado. Uma bala certeira o matou.

James Fanstone nasceu em Recife, Pernambuco, a 8 de agosto de 1890. Filho de pais ingleses foi educado naquele país. Estudou inicialmente na cidade de Brighton, na costa sul da Inglaterra. Veio a se formar pela Universidade de Londres, em 1914 e entre quase dois mil diplomados daquele ano, classificou-se em segundo lugar. Tornou-se bacharel em Cirurgia e Medicina. Terminado o conflito Mundial voltou à Universidade de Londres onde conquistou o título de Doutor em Medicina. Com este título, chegou a ocupar no London Hospital of Tropical Medicine, uma cadeira de professor assistente.

CASAMENTO COM ETHEL EM 1922

James Fanstone casou-se com Ethel Marguerite Pastefield (Dona Dayse), em 1922, na Inglaterra. Retornou ao Brasil no mesmo ano, desembarcando do navio SS Almanzora, em agosto,, passando a residir em São Paulo, pelo período de dois anos. Nesse ínterim, James Fanstone se dedicou a “aprender” o idioma do país em que nascera, enquanto defendia duas teses junto à Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Validado o seu diploma de Doutor em Medicina para atuar no Brasil, James Fanstone e família vieram conhecer o hinterland brasileiro.

De início, estabeleceram-se em Ipameri e, em fevereiro de 1925, fixaram-se definitivamente em Anápolis.

FUNDAÇÃO DO HOSPITAL EVANGÉLICO EM 1927

 

Quando aqui chegou o Dr. James Fanstone, já havia na cidade o oftalmologista Genserico Gonzaga Jayme, que precedeu todos os demais médicos em Anápolis. Ao Dr. Fanstone cabe a construção do primeiro hospital.No ano de 1927, o Dr. Fanstone fundou o Hospital Evangélico Goiano – o primeiro estabelecimento particular do gênero no Estado de Goiás equipado com avanços daquela época. O hospital tinha 20 leitos, sala de cirurgia, raios-x e laboratório.

Quando em São Paulo nasceu o primeiro filho do casal, Stanley, já falecido. No mesmo ano de sua mudança para Anápolis, nasceu o primeiro filho anapolino – Henrique Maurício, que se tornou médico como o pai. Depois, veio William (Bill), advogado.

Família Fanstone

CONSTRUÇÃO DO PRIMEIRO EDIFÍCIO

 

Em 1935, iniciou a construção do primeiro edifício do Brasil Central, sendo o médico, a um só tempo, o arquiteto, o engenheiro e o construtor. A construção foi concluída em 1938 e fica na Praça Fanstone, esquina com a Travessa João Aires. No mesmo prédio foi instalado o primeiro elevador do Estado de Goiás –da marca Atlas – ainda em funcionamento. O primeiro aparelho de raios-X a funcionar em Goiás foi o do HEG, importado de Berlim, Alemanha. Dadas a necessidades, tratou de construir ele mesmo a primeira mesa cirúrgica da região (feita de madeira), a qual está exposta no Museu Histórico de Anápolis.

TERCEIRA ESCOLA DE ENFERMAGEM

Assim é que, pelo seu espírito empreendedor, o Dr. James Fanstone, com o sempre presente apoio de Da. Dayse, foi o fundador do Hospital Evangélico Goiano. Em 1934,ele deu origem à Escola de Enfermagem Florence Nightingale – a terceira do Brasil para formação de mão de obra especializada. Dois estabelecimentos pioneiros no seu gênero no interior do Brasil.No corpo clínico do HEG, nos seus primeiros anos de funcionamento, havia inúmeras enfermeiras vindas da Inglaterra.

HEG É REFERÊNCIA NACIONAL

O Hospital Evangélico Goiano completou o seu cinquentenário em 1987 e ainda hoje funciona, sempre em sintonia com os estabelecimentos congêneres mais avançados dos Estados Unidos e Europa. Na atualidade o Hospital Evangélico Goiano ocupa 10 mil metros quadrados, dos quais oito mil edificados. Tem 178 leitos, 308 funcionários e 144 médicos. O HEG já foi considerado pelo Ministério da Saúde, referência nacional em cirurgia cardíaca, cirurgia neurológica, e referência em urgência e emergência. Desde sua fundação, acolhe estagiários de medicina, enfermagem e fisioterapia. Média de 300 cirurgias é realizada mensalmente, assim como centenas de atendimentos em diversas especialidades.

PIONEIRO DA IGREJA PRESBITERIANA

Quando da mudança para Anápolis os Fanstone foram viver numa casa alugada na Rua Desembargador Jayme. Naquela mesma casa iniciaram ambos a evangelização, com a realização de cultos dominicais – o que tempos depois daria origem à Igreja Presbiteriana em Anápolis. A afluência de simpatizantes aumentou e alugaram uma sala para esse fim.

Depois locaram uma casa maior, muito favorável ao plano de dar continuidade ao evangelismo, pois tinha um cômodo na frente adaptado para loja, com muitas prateleiras. O Dr. Fanstone construiu ele próprio, com aquelas tabuas um bom número de bancos. E desse modo surgiu, na Rua Desembargador Jayme, a primeira igreja evangélica desta cidade. Pouco tempo depois, em frente a esta casa, um barracão estava à venda e foi adquirido pelo médico, que o transformou em lugar de cultos.

O terreno do antigo barracão adquirido a expensas de James Fanstone abriga hoje o imponente prédio da Igreja Presbiteriana Central, na Rua Desembargador Jayme.

PRIMÓRDIOS DA UNIEVANGÉLICA

Nos idos de 1932 ele estabeleceu os fundamentos do Colégio Couto Magalhães. A modesta escola primária feminina, empreendida por Alice Magalhães foi por assim dizer, o embrião daquele colégio. O Dr. Fanstone assumiu a modesta escola e deu-lhe o nome de Colégio Couto Magalhães, sendo seu primeiro diretor o pai de Alice, Carlos Pereira de Magalhães. Já em 1941 implantou o curso ginasial. Logo depois, o estabelecimento passou à direção do professor e advogado, Antônio de Oliveira Brasil, que lhe deu o nome de Ginásio Couto Magalhães, formando a primeira turma de concluintes em 1944, sendo escolhido como paraninfo o médico James Fanstone.

Em 1947 aquele estabelecimento foi encampado pela Associação Educativa Evangélica. O médico James Fanstone contribuiu com seus recursos, ao longo do tempo para a manutenção do colégio, que evoluiu para grande complexo de ensino universitário – a UniEVANGÉLICA.

MEMORIAL JAMES FANSTONE

O Dr. Fanstone tinha vários títulos honoríficos: Oficial da Mui Excelente Ordem do Império Britânico, Bacharel em Medicina e Cirurgia com distinção em Patologia e Clínica Médica, pela Universidade de Londres; diplomado em Medicina e Doenças Tropicais (Inglaterra); Licenciado no Colégio Real de Físicos, de Londres; Membro do Colégio Real de Cirurgia da Inglaterra; Membro do Instituto Real de Saúde Pública de Londres, Doutor em Medicina reconhecido no Brasil pela Universidade de Minas Gerais, Cavalheiro da Ordem Anhanguera, Cidadão Goiano e Cidadão Anapolino.

Sua esposa, Dona Dayse, faleceu em 26 de janeiro de 1971, em Santos, São Paulo.James Fanstone faleceu em Anápolis a 15 de agosto de 1987. A praça que fica em frente ao hospital que ele fundou em Anápolis, leva o seu nome. O HEG integra os primórdios da Medicina no Centro-Oeste brasileiro. Dr. James Fanstone deixou escrito (em inglês) um único livro: “Missionary Adventure in Brazil – The amazingstoryoftheAnapolis Hospital”. James Fanstone faleceu no dia 15 de agosto de 1987, após 97 anos de idade.

 

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